Você entrega um trabalho e, em vez de alívio, vem a lista de tudo o que poderia ter sido melhor. Comete um erro pequeno e passa o dia se chamando de burra. Recebe um elogio e pensa “ela só está sendo educada”. Essa voz que comenta, cobra e diminui tem nome na psicologia: crítico interno. E, embora pareça parte de quem você é, ela pode ser compreendida e transformada.
Como o crítico interno costuma soar
- “Você não faz nada direito.”
- “Ninguém vai gostar de você se souberem como você é de verdade.”
- “Descansar agora? Você ainda não fez o suficiente.”
- “Que ridículo o que você disse naquela hora.”
- “Os outros conseguem, por que você não?”
Muitas vezes, a voz fala com uma dureza que você jamais usaria com alguém que ama.
De onde vem essa voz
Na Terapia do Esquema, a voz crítica é entendida como um modo: um estado que toma a frente em certos momentos. Ela costuma ser formada a partir de mensagens que recebemos ao longo da vida, de forma explícita ou sutil: críticas frequentes, exigências muito altas, comparações, amor condicionado ao desempenho, ou ambientes em que errar era perigoso.
Com o tempo, essas mensagens são internalizadas. A criança que ouvia “você não presta atenção em nada” pode se tornar uma adulta que se diz a mesma coisa, mesmo quando ninguém mais está dizendo.
Ela tenta proteger, mas machuca
É comum acreditar que o crítico interno é necessário: “se eu não me cobrar, vou relaxar e fracassar”. De fato, em algum momento ele pode ter ajudado a evitar punições ou rejeições. Mas pesquisas sobre autocrítica mostram que ela está associada a mais ansiedade, depressão e medo de errar, e não necessariamente a melhores resultados.
Existe uma diferença importante entre autocrítica e responsabilidade. A responsabilidade reconhece o erro e pensa no que fazer. A autocrítica ataca quem você é.
O primeiro passo: perceber e nomear
Quando a voz aparecer, experimente notar: “o crítico está falando agora”. Pode parecer simples, mas dar nome cria uma pequena distância entre você e a voz. Você deixa de ser a voz e passa a ser alguém que a escuta.
Também ajuda perguntar: “essa voz se parece com a de alguém da minha história?”. Muitas pessoas reconhecem o tom de um pai, de uma mãe, de um professor ou de alguém que as criticava.
Como responder ao crítico
- Pergunte se é justo: “eu diria isso a uma amiga na mesma situação?”.
- Separe o fato do julgamento: “errei o horário da reunião” é um fato; “sou irresponsável” é um julgamento.
- Fale com firmeza: “eu entendo que você quer que eu acerte, mas não vou aceitar ser tratada assim”.
- Pense no que você precisa: descanso, apoio, compreensão ou um plano para resolver o problema.
Na Terapia do Esquema, um dos objetivos é fortalecer o lado adulto saudável, capaz de colocar limites na voz crítica e de cuidar das partes mais vulneráveis com acolhimento.
Como a terapia pode ajudar
Mudar a forma como nos tratamos leva tempo, porque essa voz foi construída ao longo de anos. Na terapia, usamos técnicas como diálogos entre diferentes partes de você e exercícios de imaginação para enfraquecer o crítico e dar espaço a uma voz mais justa.
Saiba mais sobre a Terapia do Esquema e leia também sobre sentir-se uma fraude e culpa ao descansar.
Fontes e referências
Young, J. E.; Klosko, J. S.; Weishaar, M. E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Gilbert, P. The compassionate mind. London: Constable, 2009.
International Society of Schema Therapy (ISST) — Schema Therapy
Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.