O dia foi difícil. Em vez de sentir, você liga a série e emenda um episódio no outro até a madrugada. Ou pega o celular e rola a tela sem perceber o tempo passar. Ou mergulha no trabalho, em uma tarefa atrás da outra. Às vezes é comida, compras, bebida. No fim, a sensação é de anestesia: nada dói, mas também nada parece vivo.
Todo mundo precisa de distração de vez em quando. Mas, para algumas pessoas, desligar virou a principal forma de lidar com qualquer emoção difícil.
O “protetor desligado”
Na Terapia do Esquema, esse estado tem nome: modo protetor desligado. É uma parte de nós que, diante de emoções dolorosas, aperta o botão de desligar. A pessoa se sente vazia, entediada, distante ou “no automático”. Por fora, pode parecer calma e funcional. Por dentro, está longe.
Existe também uma variação chamada autoalívio desligado: em vez de simplesmente se afastar, a pessoa busca algo que traga estímulo ou conforto imediato, como comida, jogos, compras, trabalho excessivo ou substâncias, para não entrar em contato com o que sente.
Como reconhecer
- sensação frequente de vazio ou de estar “no piloto automático”;
- dificuldade de dizer o que está sentindo, mesmo quando perguntam;
- usar telas, comida ou trabalho sempre que algo incomoda;
- evitar conversas difíceis e mudar de assunto quando a emoção aparece;
- relações que parecem superficiais, sem conseguir se aproximar de verdade;
- sentir pouco, inclusive alegria.
Por que desligamos
O protetor desligado costuma ter nascido como uma solução inteligente. Em ambientes em que mostrar emoções era perigoso, inútil ou punido, ou em que a dor era grande demais para uma criança suportar, desligar foi a forma possível de sobreviver.
O problema é que, na vida adulta, esse modo continua ligado mesmo quando o perigo já passou. E desligar não escolhe: ao anestesiar a tristeza, anestesiamos também a alegria, a intimidade e a vontade.
O preço da anestesia
- as emoções não resolvidas voltam, muitas vezes no corpo ou em explosões;
- as necessidades emocionais continuam sem cuidado;
- as relações perdem profundidade;
- alguns comportamentos de alívio, como comer, beber ou gastar, trazem consequências próprias;
- a vida pode parecer sem graça ou sem sentido.
Pequenos passos para voltar a sentir
- Perceber o momento de desligar: “estou pegando o celular porque algo me incomodou?”.
- Fazer uma pausa curta antes: respirar e perguntar “o que estou sentindo agora?”, mesmo que a resposta seja “não sei”.
- Nomear no corpo: aperto, peso, calor, cansaço. O corpo costuma saber antes da mente.
- Escolher a distração de forma consciente: descansar com uma série é diferente de fugir com ela.
- Compartilhar um pouco: contar a alguém de confiança algo que você sentiu, mesmo pequeno.
Não é preciso derrubar a proteção de uma vez. Ela existe por um motivo, e merece ser tratada com respeito.
Como a terapia ajuda
Na Terapia do Esquema, o protetor desligado não é tratado como inimigo. A terapeuta ajuda a entender o que ele protege, a criar segurança suficiente para que as emoções possam aparecer aos poucos e a cuidar das necessidades que ficaram escondidas. Saiba mais sobre a Terapia do Esquema, conheça os 18 esquemas e leia também Solidão mesmo acompanhada.
Fontes e referências
Young, J. E.; Klosko, J. S.; Weishaar, M. E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.
International Society of Schema Therapy (ISST) — Schema Therapy
Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.