A pessoa não responde a mensagem, e você já imagina que ela está chateada com você. O chefe pede uma conversa, e a mente conclui que vem uma demissão. Um filho atrasa meia hora, e surgem cenas de acidente. Se você reconhece esse movimento, está diante de algo que a psicologia chama de pensamento catastrófico: a tendência de imaginar o pior desfecho possível e reagir como se ele já estivesse acontecendo.
O que é o pensamento catastrófico
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, catastrofização é uma das chamadas distorções cognitivas: formas automáticas de interpretar as situações que nos afastam de uma leitura mais equilibrada. Ela costuma vir em cadeia: “se eu errar essa apresentação, vão perceber que sou incompetente, vou perder o emprego, não vou conseguir pagar as contas…”.
Todo mundo pensa assim de vez em quando. O problema começa quando isso acontece com frequência, traz muito sofrimento e passa a guiar suas decisões.
Por que a mente faz isso?
Imaginar perigos já foi útil para a sobrevivência. A mente tenta nos proteger antecipando problemas para que possamos nos preparar. A questão é que, na ansiedade, esse sistema fica sensível demais: ele dispara diante de incertezas comuns, e não só de perigos reais.
A história de cada pessoa também participa. Quem cresceu em ambientes imprevisíveis, com críticas frequentes ou perdas importantes, pode ter aprendido que “é melhor esperar o pior para não ser pega de surpresa”. Esse aprendizado fazia sentido lá atrás, mas hoje pode custar muita energia.
O custo de viver no pior cenário
- sofrimento antecipado por coisas que, na maioria das vezes, não acontecem;
- tensão no corpo, dificuldade de dormir e cansaço;
- evitar oportunidades por medo do que pode dar errado;
- buscar confirmação o tempo todo, perguntando, checando, pesquisando;
- dificuldade de aproveitar momentos bons, porque “algo ruim deve estar por vir”.
Perguntas que ajudam a equilibrar o pensamento
A ideia não é trocar o pensamento negativo por um positivo forçado, mas ampliar o olhar. Quando perceber a mente correndo para o pior, experimente perguntar:
- Quais são as evidências de que isso vai acontecer? E as evidências contra?
- Se acontecer, o que eu poderia fazer? Quem poderia me ajudar?
- Qual é o cenário mais provável, e não só o pior?
- O que eu diria a uma amiga que estivesse pensando isso?
- Já me preocupei assim antes? Como terminou?
Escrever as respostas costuma funcionar melhor do que pensar nelas, porque ajuda a sair do ciclo mental.
Aprender a conviver com a incerteza
Muitas vezes, o que está por trás da catastrofização é a dificuldade de tolerar não saber. A mente prefere uma certeza ruim a uma dúvida. Por isso, parte do cuidado é praticar, aos poucos, ficar com a incerteza sem tentar resolvê-la imediatamente: esperar a resposta sem mandar outra mensagem, não pesquisar o sintoma, deixar a dúvida existir por um tempo.
No começo, isso gera desconforto. Com a prática, o desconforto tende a diminuir, e você descobre que consegue lidar com mais do que imaginava.
Quando procurar ajuda
Se os pensamentos catastróficos são frequentes, intensos e estão limitando sua vida, a psicoterapia pode ajudar. Na TCC, trabalhamos esses padrões de forma estruturada. Na Terapia do Esquema, olhamos também para a história que tornou o mundo tão ameaçador. Saiba mais sobre psicoterapia para ansiedade e leia também sobre ansiedade na hora de dormir.
Fontes e referências
Beck, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
Organização Mundial da Saúde — Anxiety disorders
Young, J. E.; Klosko, J. S.; Weishaar, M. E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Conteúdo educativo, preparado com base nas referências acima. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.